A linguagem não é apenas um meio de comunicação, mas um reflexo da cultura, da história e da identidade de um povo. Cada comunidade desenvolve sua própria forma de expressão, moldada por suas vivências, valores e visões de mundo. No Brasil, um país marcado por profundas diversidades regionais e sociais, essa riqueza linguística se manifesta de maneira especial na literatura popular, na música e na poesia. Do sertão nordestino de Patativa do Assaré às ruas paulistanas retratadas por Adoniran Barbosa, as variações linguísticas revelam diferentes modos de existir e interpretar a realidade.
1. A linguagem como espelho da cultura
A língua não é um sistema homogêneo: ela se adapta ao contexto geográfico, social e histórico de seus falantes. Enquanto a norma culta segue regras
padronizadas, as variações populares carregam em si a afetividade, a criatividade e a resistência de grupos muitas vezes marginalizados.
O linguista Mikhail Bakhtin já afirmava que a linguagem é um campo de disputa, onde diferentes vozes sociais se encontram e se confrontam. Assim, quando um poeta como Patativa do Assaré escreve "Eu sou de uma terra que o povo padece / Mas nem esmorece e procura vencer", ele não apenas descreve a realidade do sertanejo, mas também afirma uma identidade linguística que resiste à dominação cultural.
2. Patativa do Assaré: A poesia do sertão na voz do povo
Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, é um dos maiores representantes da poesia oral nordestina. Sua linguagem carrega o sotaque, o vocabulário
e a sintaxe do sertão, revelando uma visão de mundo profundamente ligada à terra, à seca e à luta do homem do campo.
Em versos como:
"Meu verso rastero, singelo e sem graça / Não entra na praça, no rico salão / Meu verso só entra no campo e na roça / Nas pobre paioça, da serra ao sertão"
Patativa não apenas despreza os padrões literários elitistas, mas celebra a fala do povo, com suas particularidades fonéticas ("rastero" por rasteiro) e lexicais ("paioça" por palhoça). Sua poesia é um ato político, mostrando que a linguagem rural não é "errada", mas sim outra forma legítima de expressão.
3. Adoniran Barbosa: O linguajar paulistano e a identidade urbana
Se Patativa representa o Nordeste rural, Adoniran Barbosa é a voz das ruas de São Paulo, captando o falar do imigrante, do operário e do malandro. Suas letras, cheias de
erros propositais e coloquialismos, retratam a vida nas periferias com humor e melancolia.
Em "Saudosa Maloca", ele escreve:
"Foi aqui seu moço / Que eu, Mato Grosso e o Joca / Construimos nossa maloca / Mas um dia... / Nóis nem pode se alembrá / Veio os home com as ferramenta / O dono mandô derrubá"
Aqui, Adoniran emprega marcas do português não padrão ("nóis", "alembrá", "mandô") não por ignorância, mas para dar autenticidade à narrativa. Seu uso da linguagem aproxima a música da fala real dos personagens que retrata, tornando-a um documento afetivo da São Paulo dos anos 1950 e 1960.
4. Variação linguística e preconceito
Apesar de sua riqueza, as variedades linguísticas populares ainda sofrem discriminação. Muitas vezes, o sotaque nordestino, o dialeto caipira ou a fala das periferias são vistos como "errados" ou "inferiores". No entanto, tanto Patativa quanto Adoniran mostram que essas formas de expressão são carregadas de significado e resistência.
Como dizia o próprio Patativa:
"O analfabeto também tem seu valor / Se não escreve, ele fala com fervor"
Ou seja, a linguagem não precisa seguir normas rígidas para ser poderosa. Ela é, antes de tudo, um instrumento de afirmação humana.
Conclusão: A beleza na diversidade das palavras
Patativa do Assaré e Adoniran Barbosa, cada um a seu modo, provam que a língua é viva e plural. Seus trabalhos celebram a fala do povo, mostrando que não há um único modo "correto" de se expressar, mas múltiplas possibilidades, cada uma com sua história e sua poesia.
Num país como o Brasil, onde tantas realidades coexistem, reconhecer o valor das variações linguísticas é também reconhecer a dignidade de quem as utiliza. Afinal, como diria Adoniran:
"O trem não espera por ninguém, mas a gente espera pelo trem."
E nessa espera, cada um fala do seu jeito – e é justamente isso que torna a linguagem tão fascinante.
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