segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Capitu: culpada ou inocente?




Selecionei trechos da obra que ajudam (espero) a responder a pergunta: Capitu traiu Bentinho?

José Dias, o agregado, para D. Glória, mãe de Bentinho (CAP. III):
D. Glória, a senhora persiste na idéia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que tempo, e já agora pode haver uma dificuldade. […] Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade, porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los.
- […] Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase não sai de lá. A pequena é uma desmiolada; o pai faz que não vê. - Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze à semana passada; são dois criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez anos, em que a família Pádua perdeu tanta coisa. [...]

Bentinho, sobre ele e Capitu, quando crianças (CAP. XI):
Em casa, brincava de missa, — um tanto às escondidas, porque minha mãe dizia que missa não era coisa de brincadeira. Arranjávamos um altar, Capitu e eu. Ela servia de sacristão, e alterávamos o ritual, no sentido de dividirmos a hóstia entre nós; a hóstia era sempre um doce.

Bentinho, sobre ele e Capitu, quando adolescentes (CAP. XIII):
Capitu chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor; outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos, dizendo que os achava lindíssimos. Eu, sem fazer o mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus.

Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não, ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos na Lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. Os que eu tinha com ela não eram assim […].

Pádua, pai de Capitu, sobre a filha (CAP. XVI):
Quem dirá que esta pequena tem quatorze anos? Parece dezessete.

Bentinho, falando para Capitu, que D. Glória insiste em mandá-lo ao seminário (CAP. XIX):
[…] Capitu queria saber que notícia era a que me afligia tanto. Quando lhe disse o que era, fez-se cor de cera.
Mas eu não quero, acudi logo, não quero entrar em seminários; não entro, é escusado teimarem comigo; não entro.
Capitu, a princípio, não disse nada.

[…] Enfim, tornou a si, mas tinha a cara lívida, e rompeu nestas palavras furiosas:
Beata! carola! papa-missas!
Fiquei aturdido. Capitu gostava tanto de minha mãe, e minha mãe dela, que eu não podia entender tamanha explosão.

[…] Quis defendê-la, mas Capitu não me deixou, continuou a chamar-lhe beata e carola, em voz tão alta que tive medo fosse ouvida dos pais. Nunca a vi tão irritada como então; parecia disposta a dizer tudo a todos. Cerrava os dentes, abanava a cabeça... Eu, assustado, não sabia que fizesse; repetia os juramentos, prometia ir naquela mesma noite declarar em casa que, por nada neste mundo, entraria no seminário.

[…] confessou que certamente não era por mal que minha mãe me queria fazer padre; era a promessa antiga, que ela, temente a Deus, não podia deixar de cumprir. Fiquei tão satisfeito de ver que assim espontaneamente reparava as injúrias que lhe saíram do peito, pouco antes, que peguei da mão dela e apertei-a muito. Capitu deixou-se ir, rindo […].

José Dias, para Bentinho, sobre Capitu (CAP. XXII):
[…] A gente Pádua não é de todo má. Capitu, apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada.

Capitu e Bentinho depois do primeiro beijo (CAP. XXXIV):
Ouvimos passos no corredor; era D. Fortunata. Capitu compôs-se depressa, tão depressa que, quando a mãe apontou à porta, ela abanava a cabeça e ria. [...]
Mamãe, olhe como este senhor cabeleireiro me penteou; pediu-me para acabar o penteado, e fez isto. Veja que tranças!


Bentinho, recordando o beijo (CAP. XXXIV):
Corri ao meu quarto, peguei dos livros, mas não passei à sala da lição; sentei-me na cama, recordando o penteado e o resto. […]
Sou homem!

Capitu e Bentinho juram que irão se casar um com o outro (CAP. XLVIII):
Ainda que você case com outra, cumprirei o meu juramento, não casando nunca.
Que eu case com outra?
Tudo pode ser, Bentinho. Você pode achar outra moça que lhe queira, apaixonar-se por ela e casar. Quem sou eu para você lembrar-se de mim nessa ocasião?
Mas eu também juro! Juro, Capitu, juro por Deus Nosso Senhor que só me casarei com você. Basta isto?
Devia bastar, disse ela; eu não me atrevo a pedir mais. Sim, você jura... Mas juremos por outro modo; juremos que nos havemos de casar um com outro, haja o que houver.

Bentinho vai para o seminário (CAP. LI):
Meses depois fui para o seminário de São José. Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã, somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva.

Bentinho conhece Escobar no seminário (CAP. LVII):
Chamava-se Ezequiel de Sousa Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros […].
Era mais velho que eu três anos, filho de um advogado de Curitiba […]

Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até ao fundo do quintal. […]
Não sei o que era a minha. Eu não era ainda casmurro […] mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las, e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou, até que...

Bentinho tem uma crise de ciúmes de Capitu (CAP. LXXIII):
Assim se explicam a minha estada debaixo da janela de Capitu e a passagem de um cavaleiro, um dandi, como então dizíamos. Montava um belo cavalo alazão, firme na sela, rédea na mão esquerda, a direita à cinta, botas de verniz, figura e postura esbelta […].

Ora, o dandi do cavalo baio não passou como os outros […]. O cavaleiro não se contentou de ir andando, mas voltou a cabeça para o nosso lado, o lado de Capitu, e olhou para Capitu, e Capitu para ele; o cavalo andava, a cabeça do homem deixava-se ir voltando para trás. Tal foi o segundo dente de ciúme que me mordeu. Vão lá raciocinar com um coração de brasa, como era o meu! Nem disse nada a Capitu; saí da rua à pressa [...].

Depois de sair do seminário, Bentinho se forma em Direito (passam-se cinco anos) (CAP. XCVIII):
Passei os dezoito anos, os dezenove, os vinte, os vinte e um; aos vinte e dois era bacharel em Direito.
Tudo mudara em volta de mim. Minha mãe resolvera-se a envelhecer […].
Escobar começava a negociar em café […].
Ele casou, — adivinha com quem, — casou com a boa Sancha, a amiga de Capitu, quase irmã dela, tanto que alguma vez, escrevendo-me, chamava a esta a "sua cunhadinha".

O casamento de Bentinho e Capitu (CAP. CI):
[…] Casemo-nos. Foi em 1865, uma tarde de março, por sinal que chovia. Quando chegamos ao alto da Tijuca, onde era o nosso ninho de noivos, o céu recolheu a chuva e acendeu as estrelas […].

Bentinho sobre o casal Sancha e Escobar (CAP. CIV):
Sancha e Capitu continuavam depois de casadas a amizade da escola, Escobar e eu a do seminário.
Escobar e a mulher viviam felizes; tinham uma filhinha. Em tempo ouvi falar de uma aventura do marido, […] não sei que atriz ou bailarina, mas se foi certo, não deu escândalo.

Bentinho fala a Escobar sobre querer ser pai (CAP. CIV):
Como eu um dia dissesse a Escobar que lastimava não ter um filho, replicou-me:
Homem, deixa lá. Deus os dará quando quiser, e se não der nenhum é que os quer para si, e melhor será que fiquem no Céu.
Uma criança, um filho é o complemento natural da vida.
Virá, se for necessário.
Não vinha. Capitu pedia-o em suas orações, eu mais de uma vez dava por mim a rezar e a pedi-lo.

Bentinho sobre Capitu, depois do casamento (CAP. CV):
Embora gostasse de jóias, como as outras moças, não queria que eu lhe comprasse muitas nem caras. […]
De dançar gostava, e enfeitava-se com amor quando ia a um baile; os braços é que… Eram os mais belos da noite. [...]. Quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de os pedir, e que roçavam por eles as mangas pretas, fiquei vexado e aborrecido. Ao terceiro [baile] não fui, e aqui tive o apoio de Escobar […].
Sanchinha também não vai, ou irá de mangas compridas.

O nascimento de Ezequiel, filho de Bentinho e Capitu (CAP. CVIII):
A minha alegria quando ele nasceu, não sei dizê-la; nunca a tive igual, nem creio que a possa haver idêntica […].
As horas de maior encanto e mistério eram as de amamentação.

Bentinho descobre no menino Ezequiel o hábito de imitar as pessoas (CAP. CXII):
- […] Eu só lhe descubro um defeitozinho, gosta de imitar os outros.
Imitar como?
Imitar os gestos, os modos, as atitudes; imita prima Justina, imita José Dias; já lhe achei até um jeito dos pés de Escobar e dos olhos...

Bentinho fala sobre seu ciúme (CAP. CXIII):
Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. Um vizinho, um par de valsa, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia de terror ou desconfiança.
[…] Capitu era tudo e mais que tudo; não vivia nem trabalhava que não fosse pensando nela.

Bentinho vai sozinho ao teatro, pois Capitu estava doente. Volta para casa antes da peça terminar e encontra Escobar chegando à sua casa (CAP. CXIII):
[…] Saí, mas voltei no fim do primeiro ato. Encontrei Escobar à porta do corredor.
Vinha falar-te, disse-me ele.

Bentinho comenta sobre a frieza de D. Glória com Capitu e Ezequiel (CAP. CXV):
Disse-lhe que começava a achar minha mãe um tanto fria e arredia com ela. […]
Já disse a você o que é; coisas de sogra. Mamãezinha tem ciúmes de você […].
Mas eu tenho notado que já é fria também com Ezequiel. Quando ele vai comigo, mamãe não lhe faz as mesmas graças.

José Dias revela que D. Glória elogia Capitu (CAP. CXVI):
[…] quando D. Glória elogia a sua nora e comadre...
Então, mamãe?...
Perfeitamente!
Mas, por que é que não nos visita há tanto tempo?
Creio que tem andado mais achacada dos seus reumatismos […].

Capitu não gosta de José Dias referir-se a Ezequiel com a expressão bíblica “filho do homem” (CAP. CXVI):
- […] "Dize-me, filho do homem, onde estão os teus brinquedos?" "Queres comer doce, filho do homem?
Que filho do homem é esse? perguntou-lhe Capitu agastada.
São os modos de dizer da Bíblia.
Pois eu não gosto deles, replicou ela com aspereza.

José Dias pede que Ezequiel o imite, mostrando como ele, José Dias, anda. Capitu não gosta desse costume revelado pelo filho (CAP. CXVI):
Meu anjo, como é que eu ando na rua?
Não, atalhou Capitu; já lhe vou tirando esse costume de imitar os outros.
Mas tem muita graça; […]
Outro dia chegou a fazer um gesto de D. Glória, tão bem que ela lhe deu um beijo em paga. Vamos, como é que eu ando?
Não, Ezequiel, disse eu, mamãe não quer.

Bentinho relata Ezequiel imitando Escobar (CAP. CXVI):
Eu mesmo achava feio tal sestro. Alguns dos gestos já lhe iam ficando mais repetidos, como os das mãos e pés de Escobar; ultimamente, até apanhara o modo de voltar a cabeça deste, quando falava, e o de deixá-la cair, quando ria.

Capitu repreende Ezequiel pela mania de imitar as pessoas (CAP. CXVI):
Mas o menino era travesso, como o diabo; apenas começamos a falar de outra coisa, saltou ao meio da sala, dizendo a José Dias:
O senhor anda assim.
Não podemos deixar de rir, eu mais que ninguém. A primeira pessoa que fechou a cara, que o repreendeu e chamou a si foi Capitu.
Não quero isso, ouviu?

Na casa de Escobar, Bentinho narra jogo de sedução entre ele e Sancha, esposa de Escobar (CAP. CXVIII):
Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu, graças às relações dela e Capitu, não se me daria beijá-la na testa. […]
Quando saímos, tornei a falar com os olhos à dona da casa. A mão dela apertou muito a minha, e demorou-se mais que de costume. […] Senti ainda os dedos de Sancha entre os meus, apertando uns aos outros. Foi um instante de vertigem e de pecado.
Ainda na mesma visita, Bentinho revela inveja dos braços de Escobar (CAP. CXVIII):
Apalpei-lhe os braços, como se fossem os de Sancha. Custa-me esta confissão, mas não posso suprimi-la; era jarretar a verdade. Não só os apalpei com essa ideia, mas ainda senti outra coisa; achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja […].

Escobar morre afogado (CAP. CXXI):
[…] Ouvi passos precipitados na escada, a campainha soou, soaram palmas, […] acudiram todos, acudi eu mesmo. Era um escravo da casa de Sancha que me chamava:
Para ir lá... sinhô nadando, sinhô morrendo.
[…] Escobar meteu-se a nadar, como usava fazer, arriscou-se um pouco mais fora que de costume, apesar do mar bravio, foi enrolado e morreu. As canoas que acudiram mal puderam trazer-lhe o cadáver.

Bentinho sente ciúmes da forma como Capitu olha para Escobar no caixão (CAP. CXXIII):
[…] Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas…
As minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa […].
Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.

Bentinho ressalta ser cada vez mais evidente a semelhança física entre Ezequiel e Escobar (CAP. CXXXII):
Nem só os olhos, mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa inteira, iam-se apurando com o tempo.
Escobar vinha assim surgindo da sepultura […] para se sentar comigo à mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manhã, ou pedir-me à noite a bênção do costume.
Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande, e eu jurava matá-los […].

Bentinho vai ao teatro assistir Otelo, peça de Shakespeare cujo tema é o ciúme (CAP. CXXXV):
De noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço, — um simples lenço!— e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo.

Bentinho tenta o suicídio, quando chega Ezequiel (CAP. CXXXVI):
O meu plano foi esperar o café, dissolver nele a droga e ingeri-la. […] O copeiro trouxe o café. […] A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga embrulhada. Ainda assim tive ânimo de despejar a substância na xícara, e comecei a mexer o café […].

Bentinho quase envenena o pequeno Ezequiel (CAP. CXXXVII):
Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café.
Já, papai; vou à missa com mamãe.
Toma outra xícara, meia xícara só.
E papai?
Eu mando vir mais; anda, bebe!
Ezequiel abriu a boca.
Mas não sei que senti que me fez recuar. Pus a xícara em cima da mesa, e dei por mim a beijar doidamente a cabeça do menino.
Papai! papai! exclamava Ezequiel.
Não, não, eu não sou teu pai!

Bentinho diz a Capitu que Ezequiel não é seu filho (CAP. CXXXVIII):
Capitu recompôs-se; disse ao filho que se fosse embora, e pediu-me que lhe explicasse… […] Sem lhe contar o episódio do café, repeti-lhe as palavras do final do capítulo.
O quê? perguntou ela como se ouvira mal.
Que não é meu filho.

Que é que lhe deu agora tal convicção? Ande, Bentinho, fale! fale! Despeça-me daqui, mas diga tudo primeiro.
Há coisas que se não dizem.
Que se não dizem só metade; mas já que disse metade, diga tudo.

Pedi-lhe ainda uma vez que não teimasse.
Não, Bentinho, ou conte o resto, para que eu me defenda, se você acha que tenho defesa, ou peço-lhe desde já a nossa separação: não posso mais!
Não disse tudo; mas pude aludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o nome.
Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes!

Já rapaz e de luto pela morte de Capitu, Ezequiel volta ao Brasil para visitar o pai. Bentinho o acha parecidíssimo com Escobar (CAP. CXLV):
Ao entrar na sala, dei com um rapaz, […] era nem mais nem menos o meu antigo e jovem companheiro do seminário de São José, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo e [...] o mesmo rosto do meu amigo. […] Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar.
Contou-me a vida na Europa, os estudos […]. Não havendo remédio senão ficar com ele, fiz-me pai deveras. […] Ao cabo de seis meses, Ezequiel falou-me em uma viagem à Grécia, ao Egito, e à Palestina, viagem científica […].

A morte de Ezequiel (CAP. CXLVI):
Onze meses depois, Ezequiel morreu de uma febre tifóide, e foi enterrado nas imediações de Jerusalém, onde os dois amigos da universidade lhe levantaram um túmulo com esta inscrição, tirada do profeta Ezequiel, em grego: "Tu eras perfeito nos teus caminhos” [...].

Bentinho reafirma, no último capítulo, a convicção de que foi traído (CAP. CXLVII):
[…] Uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve!

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Qual o seu Pessoa preferido?



“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.” (Fernando Pessoa)
Qual o seu Fernando Pessoa preferido? Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro ou Pessoa ele-mesmo? (ou outro heterônimo que porventura tenhas descoberto...). E o poema? Qual o seu poema preferido? Enquanto isso, vamos de “Mar português”:

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Dossiê Gonçalves Dias

Gonçalves Dias

Ana Amélia





Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá...”
Quem não conhece os versos da Canção do Exílio?
O seu autor, Gonçalves Dias, é um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos.
Antônio Gonçalves Dias nasceu no sítio Boa Vista, a 14 léguas da vila de Caxias, em 14 de agosto de 1823. Seu pai, José Manuel Gonçalves Dias, era português; sua mãe, Vicência Ferreira, era cafuza (filha de negro e índia). O senhor José Manuel abandonou Vicência e casou-se com Adelaide Ramos de Almeida, levando o menino Gonçalves Dias para seu novo lar.
Em 1838, após a morte do pai e antes de completar seus 15 anos, Gonçalves Dias foi enviado para estudar em Coimbra, Portugal. Em 1840 ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Sua madrasta teve dificuldade de custear seus estudos e mandou que Gonçalves Dias voltasse a São Luís.
Mas João Duarte Lisboa Serra, tendo conhecimento da situação de Gonçalves Dias, convidou-o para morar em sua companhia, e seus colegas Alexandre Teófilo de Carvalho Leal, Joaquim Pereira Lapa e José Hermenegildo Xavier de Morais dispuseram-se a ajudá-lo na despesa de seus estudos” (Café História).
Só voltou ao Brasil em 1845, depois que se formou.
Foi em Portugal que ele escreveu a Canção do Exílio e outros poemas que fariam parte do seu primeiro livro: Primeiros Cantos (1846).
Escreveria ainda outros livros de poesia, como Segundos Cantos, Os Timbiras, algumas peças e estudos etnográficos.
Gonçalves Dias foi o nosso primeiro poeta nacional; o criador do herói indígena como o maior representante da nossa brasilidade.

O amor por Ana Amélia
Mas, por ter traços negros e indígenas, por ter uma mãe cafuza e humilde, Gonçalves Dias foi vítima de preconceito.
Tinha 23 anos, quando, em 1846, apaixonou-se por Ana Amélia Ferreira do Vale, então com 13 anos, cunhada de Alexandre Teófilo, amigo que o ajudara a se manter em Portugal.
Escreveu para ele os poemas Seus olhos e A leviana:
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.
[...]
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão.
(trecho de Seus olhos)
És engraçada e formosa
Como a rosa,
Como a rosa em mês d'Abril;
És como a nuvem doirada
Deslizada,
Deslizada em céus d'anil.
(trecho de A leviana)
Em 1852, pediu Ana Amélia em casamento. A mãe de Ana Amélia, dona Lourença Ferreira do Vale, autoritária e preconceituosa, se opôs ao casamento. Ana Amélia não aceitava as razões de sua mãe e estava pronta para desobedecê-la e fugir com Gonçalves Dias. Porém, o poeta temeu o escândalo, desistiu de Ana Amélia e, no mesmo ano, no Rio de Janeiro, casou-se com Olímpia Coriolana da Costa.
Ana Amélia ficou profundamente revoltada com a “covardia” do poeta. Mais tarde, contra a vontade de sua mãe, a moça se casou com o negociante Domingos da Silva Porto, “que parecia escolhido a dedo por ela” para dar uma lição à sua própria família e a Gonçalves Dias, pois, segundo as informações de Antônio Henrique Leal, o escolhido de Ana amélia estava “nas mesmas desfavoráveis condições de origem e de nascimento” e para a realização do casamento foi necessária a interferência da Justiça. Dona Lourença considerou a filha morta desde esse dia, mandando tocar, nas igrejas, os sinos de finados no dia de seu casamento.
O marido de Ana Amélia faliu fraudulentamente e, para evitar a prisão, embarcou para Portugal junto com a esposa. Naquele país chegaram a passar privações.
Em Lisboa, em 1855,Gonçalves Dias encontrou-se ocasionalmente com Ana Amélia. Apressou-se a falar com ela, feliz por vê-la e poderem conversar intimamente. Gonçalves Dias ficou surpreso com a atitude de Ana Amélia, que se recusou a cumprimentá-lo, permanecendo distante e silenciosa. Ela jamais o perdoaria por não a ter levado de casa e se casado com ela, a despeito da oposição da mãe.
O resultado triste desse encontro transparece num dos mais famosos poemas de Gonçalves Dias: Ainda uma vez – Adeus:
I
Enfim te vejo! — enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!
[…]
IV
Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.
[...]
V
Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura...
Olha-me bem, que sou eu!
VI
Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias — bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!
[...]
XVI
Dói-te de mim, que t'imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!

Gonçalves Dias morreu aos quarenta e um anos de idade, a 3 de novembro de 1864, no naufrágio do navio Ville Boulogne, nas costas do Maranhão, próximo à vila de Guimarães. Foi o único da tripulação que morreu no naufrágio, desaparecendo no mar, sem ter avistado, pela última vez, as palmeiras onde cantavam os sabiás. Mas sua poesia o coloca, nacional e universalmente, entre os maiores poetas de sua época.
A originalidade de Gonçalves Dias está na escolha de seus heróis. E os buscou nas florestas brasileiras, no verdadeiro povo americano acuado, ameaçado e perseguido pelos invasores europeus, mas que, a despeito de todas as vicissitudes, agiam com altivez e bravura.
Gonçalves Dias julgava-se no dever de defender os índios do massacre que vinham sofrendo desde a chegada dos portugueses ao Brasil. Ele considerava os índios os donos da terra, e esta ideia a defendeu com toda a eloquência de suas palavras. Não só nos versos de Y-Juca-Pirama, da Canção dos Tamoios, do Canto do Guerreiro, como também em seus trabalhos etnológicos.
Falando dos índios, nas Reflexões sobre os Anais Históricos do Maranhão por Bernardo Pereira de Berredo, ele dizia:
Em espaço de quarenta anos se mataram e se destruíram por estas costas e sertões mais de dois milhões de índios e mais de quinhentas povoações, como grandes cidades, e disto nunca se viu castigo”.
Fontes:
Gonçalves Dias. Wikipédia. In:

Gonçalves Dias {1823-1864}. Café História. In: http://cafehistoria.ning.com/group/o-espirito-das-epocas/page/16-gon-alves-dias-1823-1864

Poemas de Gonçalves Dias disponíveis em várias páginas da internet.