sexta-feira, 27 de março de 2020
O que é uma "Redação nota 1000"?
Nessa postagem, vamos começar a analisar que redações merecem nota 1000 no Enem.
A primeira redação analisada é de Daniel Gomes, de Fortaleza, Ceará, que obteve nota 1000 no Enem 2019.
Na caixa de comentários, expressem os conhecimentos prévios de vocês sobre o assunto, respondendo aos seguintes questionamentos: você acha que a redação mereceu nota 1000? Que elementos, características, competências desenvolvidas, permitiram a obtenção da nota máxima?
Redação Nota 1000 – Enem 2019
Daniel Gomes, de Fortaleza
"O filme ‘’Cine Hollywood’’ narra a chegada da primeira sala de cinema na cidade de Crato, interior do Ceará. Na obra, os moradores do até então vilarejo nordestino têm suas vidas modificadas pela modernidade que, naquele contexto, se traduzia na exibição de obras cinematográficas. De maneira análoga à história fictícia, a questão da democratização do acesso ao cinema, no Brasil, ainda enfrenta problemas no que diz respeito à exclusão da parcela socialmente vulnerável da sociedade. Assim, é lícito afirmar que a postura do Estado em relação à cultura e a negligência de parte das empresas que trabalham com a ‘’sétima arte’’ contribuem para a perpetuação desse cenário negativo.
Em primeiro plano, evidencia-se, por parte do Estado, a ausência de políticas públicas suficientemente efetivas para democratizar o acesso ao cinema no país. Essa lógica é comprovada pelo papel passivo que o Ministério da Cultura exerce na administração do país. Instituído para ser um órgão que promova a aproximação de brasileiros a bens culturais, tal ministério ignora ações que poderiam, potencialmente, fomentar o contato de classes pouco privilegiadas ao mundo dos filmes, como a distribuição de ingressos em instituições públicas de ensino básico e passeios escolares a salas de cinema. Desse modo, o Governo atua como agente perpetuador do processo de exclusão da população mais pobre a esse tipo de entretenimento. Logo, é substancial a mudança desse quadro.
Outrossim, é imperativo pontuar que a negligência de empresas do setor – como produtoras, distribuidoras de filmes e cinemas – também colabora para a dificuldade em democratizar o acesso ao cinema no Brasil. Isso decorre, principalmente, da postura capitalista de grande parte do empresariado desse segmento, que prioriza os ganhos financeiros em detrimento do impacto cultural que o cinema pode exercer sobre uma comunidade. Nesse sentido, há, de fato, uma visão elitista advinda dos donos de salas de exibição, que muitas vezes precificam ingressos com valores acima do que classes populares podem pagar. Consequentemente, a população de baixa renda fica impedida de frequentar esses espaços. É necessário, portanto, que medidas sejam tomadas para facilitar o acesso democrático ao cinema no país. Posto isso, o Ministério da Cultura deve, por meio de um amplo debate entre Estado, sociedade civil, Agência Nacional de Cinema (ANCINE) e profissionais da área, lançar um Plano Nacional de Democratização ao Cinema no Brasil, a fim de fazer com que o maior número possível de brasileiros possa desfrutar do universo dos filmes. Tal plano deverá focar, principalmente, em destinar certo percentual de ingressos para pessoas de baixa renda e estudantes de escolas públicas. Ademais, o Governo Federal deve também, mediante oferecimento de incentivos fiscais, incentivar os cinemas a reduzirem o custo de seus ingressos. Dessa maneira, a situação vivenciada em ‘’Cine Hollywood’’ poderá ser visualizada na realidade de mais brasileiros."
Estudando na Quarentena
Boa tarde, meus queridos, minhas queridas. Ah, que saudade de vocês...
Mas, nesse momento, completamente inédito da história mundial, precisamos ficar em casa, solidários e unidos à distância, virtualmente, dos nossos aparelhinhos, tablets, notebooks...
Para que mantenhamos nossas mentes ocupadas com coisas interessantes, efetivamente relevantes, passo, a partir de hoje, a compartilhar com vocês conteúdos originais de língua portuguesa e língua inglesa. Sem desprezar, é claro, contribuições e conteúdos já disponíveis na web, os quais, os mais adequados, serão devidamente integrados às nossas postagens.
Acessem textos, vídeos, áudios, imagens, gráficos, respondam aos questionamentos, façam comentários ao final das postagens, deem sugestões, coloquem questões pertinentes que ajudem a aperfeiçoar o processo coletivo de compreensão e aprendizagem.
Um forte abraço. Rumbora? See you soon. Hasta la vista.
segunda-feira, 15 de outubro de 2018
Soneto do Dia dos Professores do ano de 2018
Sou professor e ensino esperança.
O diálogo é minha metodologia.
Ver a imperfeição, é a filosofia
Que me explica o adulto e a criança.
Contradições e pedras no caminho
Sempre existiram e hão de existir.
À insensatez vamos resistir
(Pois, nessa luta, não estou sozinho).
O ódio, a ignorância, a mentira
Não apagam as palavras e a lira
De Castro Alves, de Cruz e Sousa.
De Noémia, Graciliano Ramos
E milhares de mestres que amamos:
A humanidade é nossa grande lousa.
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
Capitu: culpada ou inocente?
Selecionei
trechos da obra que ajudam (espero) a responder a pergunta: Capitu
traiu Bentinho?
José
Dias, o agregado, para D. Glória, mãe de Bentinho (CAP.
III):
— D.
Glória, a senhora persiste na idéia de meter o nosso Bentinho no
seminário? É mais que tempo, e já agora pode haver uma
dificuldade. […] Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande
metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade,
porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para
separá-los.
-
[…] Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase não sai de lá.
A pequena é uma desmiolada; o pai faz que não vê. - Mas, Sr. José
Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça
desconfiar. Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez
quatorze à semana passada; são dois criançolas. Não se esqueça
que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez anos,
em que a família Pádua perdeu tanta coisa. [...]
Bentinho,
sobre ele e Capitu, quando crianças (CAP.
XI):
Em
casa, brincava de missa, — um tanto às escondidas, porque minha
mãe dizia que missa não era coisa de brincadeira. Arranjávamos um
altar, Capitu e eu. Ela servia de sacristão, e alterávamos o
ritual, no sentido de dividirmos a hóstia entre nós; a hóstia era
sempre um doce.
Bentinho,
sobre ele e Capitu, quando adolescentes (CAP.
XIII):
Capitu
chamava-me às vezes bonito, mocetão, uma flor; outras pegava-me nas
mãos para contar-me os dedos. E comecei a recordar esses e outros
gestos e palavras, o prazer que sentia quando ela me passava a mão
pelos cabelos, dizendo que os achava lindíssimos. Eu, sem fazer o
mesmo aos dela, dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus.
Quando
me perguntava se sonhara com ela na véspera, e eu dizia que não,
ouvia-lhe contar que sonhara comigo, e eram aventuras
extraordinárias, que subíamos ao Corcovado pelo ar, que dançávamos
na Lua, ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes, a
fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. Em todos esses
sonhos andávamos unidinhos. Os que eu tinha com ela não eram assim
[…].
Pádua,
pai de Capitu, sobre a filha (CAP.
XVI):
— Quem
dirá que esta pequena tem quatorze anos? Parece dezessete.
Bentinho,
falando para Capitu, que D. Glória insiste em mandá-lo ao seminário
(CAP. XIX):
[…]
Capitu queria saber que notícia era a que me afligia tanto. Quando
lhe disse o que era, fez-se cor de cera.
— Mas
eu não quero, acudi logo, não quero entrar em seminários; não
entro, é escusado teimarem comigo; não entro.
Capitu,
a princípio, não disse nada.
[…]
Enfim, tornou a si, mas tinha a cara lívida, e rompeu nestas
palavras furiosas:
— Beata!
carola! papa-missas!
Fiquei
aturdido. Capitu gostava tanto de minha mãe, e minha mãe dela, que
eu não podia entender tamanha explosão.
[…]
Quis defendê-la, mas Capitu não me deixou, continuou a chamar-lhe
beata e carola, em voz tão alta que tive medo fosse ouvida dos pais.
Nunca a vi tão irritada como então; parecia disposta a dizer tudo a
todos. Cerrava os dentes, abanava a cabeça... Eu, assustado, não
sabia que fizesse; repetia os juramentos, prometia ir naquela mesma
noite declarar em casa que, por nada neste mundo, entraria no
seminário.
[…]
confessou que certamente não era por mal que minha mãe me queria
fazer padre; era a promessa antiga, que ela, temente a Deus, não
podia deixar de cumprir. Fiquei tão satisfeito de ver que assim
espontaneamente reparava as injúrias que lhe saíram do peito, pouco
antes, que peguei da mão dela e apertei-a muito. Capitu deixou-se
ir, rindo […].
José
Dias, para Bentinho, sobre Capitu (CAP.
XXII):
[…]
A gente Pádua não é de todo má. Capitu, apesar daqueles olhos que
o Diabo lhe deu... Você já reparou nos olhos dela? São assim de
cigana oblíqua e dissimulada.
Capitu
e Bentinho depois do primeiro beijo (CAP.
XXXIV):
Ouvimos
passos no corredor; era D. Fortunata. Capitu compôs-se depressa, tão
depressa que, quando a mãe apontou à porta, ela abanava a cabeça e
ria. [...]
— Mamãe,
olhe como este senhor cabeleireiro me penteou; pediu-me para acabar o
penteado, e fez isto. Veja que tranças!
Bentinho,
recordando o beijo (CAP. XXXIV):
Corri
ao meu quarto, peguei dos livros, mas não passei à sala da lição;
sentei-me na cama, recordando o penteado e o resto. […]
— Sou
homem!
Capitu
e Bentinho juram que irão se casar um com o outro (CAP.
XLVIII):
— Ainda
que você case com outra, cumprirei o meu juramento, não casando
nunca.
— Que
eu case com outra?
— Tudo
pode ser, Bentinho. Você pode achar outra moça que lhe queira,
apaixonar-se por ela e casar. Quem sou eu para você lembrar-se de
mim nessa ocasião?
— Mas
eu também juro! Juro, Capitu, juro por Deus Nosso Senhor que só me
casarei com você. Basta isto?
— Devia
bastar, disse ela; eu não me atrevo a pedir mais. Sim, você jura...
Mas juremos por outro modo; juremos que nos havemos de casar um com
outro, haja o que houver.
Bentinho
vai para o seminário (CAP. LI):
Meses
depois fui para o seminário de São José. Se eu pudesse contar as
lágrimas que chorei na véspera e na manhã, somaria mais que todas
as vertidas desde Adão e Eva.
Bentinho
conhece Escobar no seminário (CAP.
LVII):
Chamava-se
Ezequiel de Sousa Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros […].
Era
mais velho que eu três anos, filho de um advogado de Curitiba […]
Escobar
veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até ao fundo do
quintal. […]
Não
sei o que era a minha. Eu não era ainda casmurro […] mas como as
portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las, e
Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou, até
que...
Bentinho
tem uma crise de ciúmes de Capitu (CAP.
LXXIII):
Assim
se explicam a minha estada debaixo da janela de Capitu e a passagem
de um cavaleiro, um dandi, como então dizíamos. Montava um belo
cavalo alazão, firme na sela, rédea na mão esquerda, a direita à
cinta, botas de verniz, figura e postura esbelta […].
Ora,
o dandi do cavalo baio não passou como os outros […]. O cavaleiro
não se contentou de ir andando, mas voltou a cabeça para o nosso
lado, o lado de Capitu, e olhou para Capitu, e Capitu para ele; o
cavalo andava, a cabeça do homem deixava-se ir voltando para trás.
Tal foi o segundo dente de ciúme que me mordeu. Vão lá raciocinar
com um coração de brasa, como era o meu! Nem disse nada a Capitu;
saí da rua à pressa [...].
Depois
de sair do seminário, Bentinho se
forma em Direito (passam-se cinco anos) (CAP.
XCVIII):
Passei
os dezoito anos, os dezenove, os vinte, os vinte e um; aos vinte e
dois era bacharel em Direito.
Tudo
mudara em volta de mim. Minha mãe resolvera-se a envelhecer […].
Escobar
começava a negociar em café […].
Ele
casou, — adivinha com quem, — casou com a boa Sancha, a amiga de
Capitu, quase irmã dela, tanto que alguma vez, escrevendo-me,
chamava a esta a "sua cunhadinha".
O
casamento de Bentinho e Capitu (CAP.
CI):
[…]
Casemo-nos. Foi em 1865, uma tarde de março, por sinal que chovia.
Quando chegamos ao alto da Tijuca, onde era o nosso ninho de noivos,
o céu recolheu a chuva e acendeu as estrelas […].
Bentinho
sobre o casal Sancha e Escobar (CAP.
CIV):
Sancha
e Capitu continuavam depois de casadas a amizade da escola, Escobar e
eu a do seminário.
Escobar
e a mulher viviam felizes; tinham uma filhinha. Em tempo ouvi falar
de uma aventura do marido, […] não sei que atriz ou bailarina, mas
se foi certo, não deu escândalo.
Bentinho
fala a Escobar sobre querer ser pai
(CAP. CIV):
Como
eu um dia dissesse a Escobar que lastimava não ter um filho,
replicou-me:
— Homem,
deixa lá. Deus os dará quando quiser, e se não der nenhum é que
os quer para si, e melhor será que fiquem no Céu.
— Uma
criança, um filho é o complemento natural da vida.
— Virá,
se for necessário.
Não
vinha. Capitu pedia-o em suas orações, eu mais de uma vez dava por
mim a rezar e a pedi-lo.
Bentinho
sobre Capitu, depois do casamento (CAP.
CV):
Embora
gostasse de jóias, como as outras moças, não queria que eu lhe
comprasse muitas nem caras. […]
De
dançar gostava, e enfeitava-se com amor quando ia a um baile; os
braços é que… Eram os mais belos da noite. [...]. Quando vi que
os homens não se fartavam de olhar para eles, de os buscar, quase de
os pedir, e que roçavam por eles as mangas pretas, fiquei vexado e
aborrecido. Ao terceiro [baile] não fui, e aqui tive o apoio de
Escobar […].
— Sanchinha
também não vai, ou irá de mangas compridas.
O
nascimento de Ezequiel, filho de
Bentinho e Capitu (CAP. CVIII):
A
minha alegria quando ele nasceu, não sei dizê-la; nunca a tive
igual, nem creio que a possa haver idêntica […].
As
horas de maior encanto e mistério eram as de amamentação.
Bentinho
descobre no menino Ezequiel o hábito
de imitar as pessoas (CAP. CXII):
-
[…] Eu só lhe descubro um defeitozinho, gosta de imitar os outros.
— Imitar
como?
— Imitar
os gestos, os modos, as atitudes; imita prima Justina, imita José
Dias; já lhe achei até um jeito dos pés de Escobar e dos olhos...
Bentinho
fala sobre seu ciúme (CAP.
CXIII):
Cheguei
a ter ciúmes de tudo e de todos. Um vizinho, um par de valsa,
qualquer homem, moço ou maduro, me enchia de terror ou desconfiança.
[…]
Capitu era tudo e mais que tudo; não vivia nem trabalhava que não
fosse pensando nela.
Bentinho
vai sozinho ao teatro, pois Capitu
estava doente. Volta para casa antes da peça terminar e encontra
Escobar chegando à sua casa (CAP.
CXIII):
[…]
Saí, mas voltei no fim do primeiro ato. Encontrei Escobar à porta
do corredor.
— Vinha
falar-te, disse-me ele.
Bentinho
comenta sobre a frieza de D. Glória
com Capitu e Ezequiel (CAP. CXV):
Disse-lhe
que começava a achar minha mãe um tanto fria e arredia com ela. […]
— Já
disse a você o que é; coisas de sogra. Mamãezinha tem ciúmes de
você […].
— Mas
eu tenho notado que já é fria também com Ezequiel. Quando ele vai
comigo, mamãe não lhe faz as mesmas graças.
José
Dias revela que D. Glória elogia Capitu (CAP.
CXVI):
[…]
quando D. Glória elogia a sua nora e comadre...
— Então,
mamãe?...
— Perfeitamente!
— Mas,
por que é que não nos visita há tanto tempo?
— Creio
que tem andado mais achacada dos seus reumatismos […].
Capitu
não gosta de José Dias referir-se
a Ezequiel com a expressão bíblica “filho do homem” (CAP.
CXVI):
-
[…] "Dize-me, filho do homem, onde estão os teus brinquedos?"
"Queres comer doce, filho do homem?
— Que
filho do homem é esse? perguntou-lhe Capitu agastada.
— São
os modos de dizer da Bíblia.
— Pois
eu não gosto deles, replicou ela com aspereza.
José
Dias pede que Ezequiel o imite, mostrando como ele, José Dias, anda.
Capitu não gosta desse costume revelado pelo filho (CAP.
CXVI):
Meu
anjo, como é que eu ando na rua?
— Não,
atalhou Capitu; já lhe vou tirando esse costume de imitar os outros.
— Mas
tem muita graça; […]
Outro
dia chegou a fazer um gesto de D. Glória, tão bem que ela lhe deu
um beijo em paga. Vamos, como é que eu ando?
— Não,
Ezequiel, disse eu, mamãe não quer.
Bentinho
relata Ezequiel imitando Escobar
(CAP. CXVI):
Eu
mesmo achava feio tal sestro. Alguns dos gestos já lhe iam ficando
mais repetidos, como os das mãos e pés de Escobar; ultimamente, até
apanhara o modo de voltar a cabeça deste, quando falava, e o de
deixá-la cair, quando ria.
Capitu
repreende Ezequiel pela mania de
imitar as pessoas (CAP. CXVI):
Mas
o menino era travesso, como o diabo; apenas começamos a falar de
outra coisa, saltou ao meio da sala, dizendo a José Dias:
— O
senhor anda assim.
Não
podemos deixar de rir, eu mais que ninguém. A primeira pessoa que
fechou a cara, que o repreendeu e chamou a si foi Capitu.
— Não
quero isso, ouviu?
Na
casa de Escobar, Bentinho narra jogo de sedução
entre ele e Sancha, esposa de Escobar (CAP.
CXVIII):
Sancha
ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu, graças às
relações dela e Capitu, não se me daria beijá-la na testa. […]
Quando
saímos, tornei a falar com os olhos à dona da casa. A mão dela
apertou muito a minha, e demorou-se mais que de costume. […] Senti
ainda os dedos de Sancha entre os meus, apertando uns aos outros. Foi
um instante de vertigem e de pecado.
Ainda
na mesma visita, Bentinho revela
inveja dos braços de Escobar (CAP.
CXVIII):
Apalpei-lhe
os braços, como se fossem os de Sancha. Custa-me esta confissão,
mas não posso suprimi-la; era jarretar a verdade. Não só os
apalpei com essa ideia, mas ainda senti outra coisa; achei-os mais
grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja […].
Escobar
morre afogado (CAP. CXXI):
[…]
Ouvi passos precipitados na escada, a campainha soou, soaram palmas,
[…] acudiram todos, acudi eu mesmo. Era um escravo da casa de
Sancha que me chamava:
— Para
ir lá... sinhô nadando, sinhô morrendo.
[…]
Escobar meteu-se a nadar, como usava fazer, arriscou-se um pouco mais
fora que de costume, apesar do mar bravio, foi enrolado e morreu. As
canoas que acudiram mal puderam trazer-lhe o cadáver.
Bentinho
sente ciúmes da forma como Capitu
olha para Escobar no caixão (CAP.
CXXIII):
[…]
Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão
apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas
poucas e caladas…
As
minhas cessaram logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as
depressa […].
Momento
houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva,
sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga
do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã.
Bentinho
ressalta ser cada vez mais evidente a
semelhança física entre Ezequiel e Escobar (CAP.
CXXXII):
Nem
só os olhos, mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa
inteira, iam-se apurando com o tempo.
Escobar
vinha assim surgindo da sepultura […] para se sentar comigo à
mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manhã, ou
pedir-me à noite a bênção do costume.
Quando
nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande, e eu
jurava matá-los […].
Bentinho
vai ao teatro assistir Otelo, peça
de Shakespeare cujo tema é o ciúme (CAP.
CXXXV):
De
noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não
vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a
coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço,
— um simples lenço!— e aqui dou matéria à meditação dos
psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude furtar à
observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e
compor a mais sublime tragédia deste mundo.
Bentinho
tenta o suicídio, quando chega
Ezequiel (CAP. CXXXVI):
O
meu plano foi esperar o café, dissolver nele a droga e ingeri-la.
[…] O copeiro trouxe o café. […] A mão tremeu-me ao abrir o
papel em que trazia a droga embrulhada. Ainda assim tive ânimo de
despejar a substância na xícara, e comecei a mexer o café […].
Bentinho
quase envenena o pequeno Ezequiel (CAP.
CXXXVII):
Inclinei-me
e perguntei a Ezequiel se já tomara café.
— Já,
papai; vou à missa com mamãe.
— Toma
outra xícara, meia xícara só.
— E
papai?
— Eu
mando vir mais; anda, bebe!
Ezequiel
abriu a boca.
Mas
não sei que senti que me fez recuar. Pus a xícara em cima da mesa,
e dei por mim a beijar doidamente a cabeça do menino.
— Papai!
papai! exclamava Ezequiel.
— Não,
não, eu não sou teu pai!
Bentinho
diz a Capitu que Ezequiel não é
seu filho (CAP. CXXXVIII):
Capitu
recompôs-se; disse ao filho que se fosse embora, e pediu-me que lhe
explicasse… […] Sem lhe contar o episódio do café, repeti-lhe
as palavras do final do capítulo.
— O
quê? perguntou ela como se ouvira mal.
— Que
não é meu filho.
Que
é que lhe deu agora tal convicção? Ande, Bentinho, fale! fale!
Despeça-me daqui, mas diga tudo primeiro.
— Há
coisas que se não dizem.
— Que
se não dizem só metade; mas já que disse metade, diga tudo.
Pedi-lhe
ainda uma vez que não teimasse.
— Não,
Bentinho, ou conte o resto, para que eu me defenda, se você acha que
tenho defesa, ou peço-lhe desde já a nossa separação: não posso
mais!
Não
disse tudo; mas pude aludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o
nome.
— Pois
até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes!
Já
rapaz e de luto pela morte de Capitu, Ezequiel volta ao Brasil para
visitar o pai. Bentinho o acha parecidíssimo com Escobar (CAP.
CXLV):
Ao
entrar na sala, dei com um rapaz, […] era nem mais nem menos o meu
antigo e jovem companheiro do seminário de São José, um pouco mais
baixo, menos cheio de corpo e [...] o mesmo rosto do meu amigo. […]
Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar.
Contou-me
a vida na Europa, os estudos […]. Não havendo remédio senão
ficar com ele, fiz-me pai deveras. […] Ao cabo de seis meses,
Ezequiel falou-me em uma viagem à Grécia, ao Egito, e à Palestina,
viagem científica […].
A
morte de Ezequiel (CAP. CXLVI):
Onze
meses depois, Ezequiel morreu de uma febre tifóide, e foi enterrado
nas imediações de Jerusalém, onde os dois amigos da universidade
lhe levantaram um túmulo com esta inscrição, tirada do profeta
Ezequiel, em grego: "Tu eras perfeito nos teus caminhos”
[...].
Bentinho
reafirma, no último capítulo, a
convicção de que foi traído (CAP.
CXLVII):
[…]
Uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a
saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão
extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que
acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve!
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Qual o seu Pessoa preferido?
“Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é
pequena.” (Fernando Pessoa)
Qual o seu Fernando
Pessoa preferido? Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro ou
Pessoa ele-mesmo? (ou outro heterônimo que porventura tenhas
descoberto...). E o poema? Qual o seu poema preferido? Enquanto isso,
vamos de “Mar português”:
Ó mar
salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
quinta-feira, 8 de setembro de 2016
Dossiê Gonçalves Dias
![]() |
| Gonçalves Dias |
![]() |
| Ana Amélia |
“Minha
terra tem palmeiras
Onde
canta o sabiá...”
Quem
não conhece os versos da Canção do Exílio?
O
seu autor, Gonçalves Dias, é um dos maiores poetas brasileiros de
todos os tempos.
Antônio
Gonçalves Dias nasceu no sítio Boa Vista, a 14 léguas da vila de
Caxias, em 14 de agosto de 1823. Seu pai, José Manuel Gonçalves
Dias, era português; sua mãe, Vicência Ferreira, era cafuza (filha
de negro e índia). O senhor José Manuel abandonou Vicência e
casou-se com Adelaide Ramos de Almeida, levando o menino Gonçalves
Dias para seu novo lar.
Em
1838, após a morte do pai e antes de completar seus 15 anos,
Gonçalves Dias foi enviado para estudar em Coimbra, Portugal. Em
1840 ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Sua madrasta teve dificuldade de custear seus estudos e mandou que
Gonçalves Dias voltasse a São Luís.
“Mas
João Duarte Lisboa Serra, tendo conhecimento da situação de
Gonçalves Dias, convidou-o para morar em sua companhia, e seus
colegas Alexandre Teófilo de Carvalho Leal, Joaquim Pereira Lapa e
José Hermenegildo Xavier de Morais dispuseram-se a ajudá-lo na
despesa de seus estudos” (Café História).
Só
voltou ao Brasil em 1845, depois que se formou.
Foi
em Portugal que ele escreveu a Canção do Exílio e outros poemas
que fariam parte do seu primeiro livro: Primeiros Cantos (1846).
Escreveria
ainda outros livros de poesia, como Segundos Cantos, Os Timbiras,
algumas peças e estudos etnográficos.
Gonçalves
Dias foi o nosso primeiro poeta nacional; o criador do herói
indígena como o maior representante da nossa brasilidade.
O
amor por Ana Amélia
Mas,
por ter traços negros e indígenas, por ter uma mãe cafuza e
humilde, Gonçalves Dias foi vítima de preconceito.
Tinha
23 anos, quando, em 1846, apaixonou-se por Ana Amélia Ferreira do
Vale, então com 13 anos, cunhada de Alexandre Teófilo, amigo que o
ajudara a se manter em Portugal.
Escreveu
para ela os poemas Seus olhos e A leviana:
Seus
olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.
De vivo luzir,
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.
[...]
Seus
olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão.
Assim é que são;
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão.
(trecho
de Seus olhos)
És
engraçada e formosa
Como a rosa,
Como a rosa em mês d'Abril;
És como a nuvem doirada
Deslizada,
Deslizada em céus d'anil.
Como a rosa,
Como a rosa em mês d'Abril;
És como a nuvem doirada
Deslizada,
Deslizada em céus d'anil.
(trecho
de A leviana)
Em
1852, pediu Ana Amélia em casamento. A mãe de Ana Amélia, dona
Lourença Ferreira do Vale, autoritária e preconceituosa, se opôs
ao casamento. Ana Amélia não aceitava as razões de sua mãe e
estava pronta para desobedecê-la e fugir com Gonçalves Dias. Porém,
o poeta temeu o escândalo, desistiu de Ana Amélia e, no mesmo ano,
no Rio de Janeiro, casou-se com Olímpia Coriolana da Costa.
Ana
Amélia ficou profundamente revoltada com a “covardia” do poeta.
Mais tarde, contra a vontade de sua mãe, a moça se casou com o
negociante Domingos da Silva Porto, “que parecia escolhido a dedo
por ela” para dar uma lição à sua própria família e a
Gonçalves Dias, pois, segundo as informações de Antônio Henrique
Leal, o escolhido de Ana amélia estava “nas mesmas desfavoráveis
condições de origem e de nascimento” e para a realização do
casamento foi necessária a interferência da Justiça. Dona Lourença
considerou a filha morta desde esse dia, mandando tocar, nas igrejas,
os sinos de finados no dia de seu casamento.
O
marido de Ana Amélia faliu fraudulentamente e, para evitar a prisão,
embarcou para Portugal junto com a esposa. Naquele país chegaram a
passar privações.
Em
Lisboa, em 1855,Gonçalves Dias encontrou-se ocasionalmente com Ana
Amélia. Apressou-se a falar com ela, feliz por vê-la e poderem
conversar intimamente. Gonçalves Dias ficou surpreso com a atitude
de Ana Amélia, que se recusou a cumprimentá-lo, permanecendo
distante e silenciosa. Ela jamais o perdoaria por não a ter levado
de casa e se casado com ela, a despeito da oposição da mãe.
O
resultado triste desse encontro transparece num dos mais famosos
poemas de Gonçalves Dias: Ainda uma vez – Adeus:
I
Enfim
te vejo! — enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!
[…]
IV
Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.
[...]
V
Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura...
Olha-me bem, que sou eu!
VI
Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias — bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.
[...]
V
Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura...
Olha-me bem, que sou eu!
VI
Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias — bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal
sabes quanto lutei!
[...]
XVI
Dói-te de mim, que t'imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!
[...]
XVI
Dói-te de mim, que t'imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!
Gonçalves
Dias morreu aos quarenta e um anos de idade, a 3 de novembro de 1864,
no naufrágio do navio Ville Boulogne, nas costas do Maranhão,
próximo à vila de Guimarães. Foi o único da tripulação que
morreu no naufrágio, desaparecendo no mar, sem ter avistado, pela
última vez, as palmeiras onde cantavam os sabiás. Mas sua poesia o
coloca, nacional e universalmente, entre os maiores poetas de sua
época.
A
originalidade de Gonçalves Dias está na escolha de seus heróis. E
os buscou nas florestas brasileiras, no verdadeiro povo americano
acuado, ameaçado e perseguido pelos invasores europeus, mas que, a
despeito de todas as vicissitudes, agiam com altivez e bravura.
Gonçalves
Dias julgava-se no dever de defender os índios do massacre
que vinham sofrendo desde a chegada dos portugueses ao Brasil.
Ele considerava os índios os donos da terra, e esta ideia a defendeu
com toda a eloquência de suas palavras. Não só nos versos de
Y-Juca-Pirama, da Canção
dos Tamoios, do Canto do
Guerreiro, como também em seus trabalhos etnológicos.
Falando
dos índios, nas Reflexões sobre os Anais Históricos do Maranhão
por Bernardo Pereira de Berredo, ele dizia:
“Em
espaço de quarenta anos se mataram e se destruíram por estas costas
e sertões mais de dois milhões de índios e mais de quinhentas
povoações, como grandes cidades, e disto nunca se viu castigo”.
Fontes:
Gonçalves
Dias. Wikipédia. In:
Gonçalves Dias {1823-1864}. Café História. In: http://cafehistoria.ning.com/group/o-espirito-das-epocas/page/16-gon-alves-dias-1823-1864
Poemas
de Gonçalves Dias disponíveis em várias páginas da internet.
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