sábado, 20 de fevereiro de 2016

Sonetos


Soneto
Bocage

Ó tranças, de que Amor prisão me tece,
Ó mãos de neve, que regeis meu fado!
Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,
Onde o menino
alígero adormece.

Ó ledos olhos azuis, cuja luz parece
Tênue raio de sol! Ó gesto amado,
De rosas e açucenas semeado
Por quem morrera esta alma, se pudesse!

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!

Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois?... Sois de Vênus? - É mentira;
Sois de Marília, sois de meus amores.


*   *   *


IDEAL
Antero de Quental

Aquela que eu adoro não é feita
De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas,
Da antiga Vénus de cintura estreita...

Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortais entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita...

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...

É como uma miragem que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo...


*   *   *



Manias!

Cesário Verde

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, – hoje uma ossada, –
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!
 

*   *   *


Versos íntimos
Augusto dos Anjos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.


Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


*   *   *



Fanatismo
Florbela Espanca

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!


Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!


“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!


E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”


*   *   *
 


Soneto de fidelidade
Vinícius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Estudando o texto jornalístico: educação em direitos humanos e para as relações de gênero

As mais recentes postagens do blog abordam o machismo e a violência contra a mulher. O objetivo é estudarmos o texto jornalístico a partir da "educação para as relações de gênero" e da "educação em direitos humanos", dois dos temas sociais presentes nas Diretrizes Curriculares do Estado do Maranhão. A síntese dos nossos estudos deve propiciar a escrita de textos relacionados à realidade local para serem lidos e divulgados no 8 de Março, Dia Internacional da Mulher.

Denúncias de violência contra mulher no carnaval aumentam mais de 200%



Por Patrícia Moraes | 12/02/2016 17:52 - Atualizada às 12/02/2016 18:30

Em 2016, o Ligue 180 registrou 3.174 relatos de violência durante o período de pré-carnaval e carnaval, o que significa um aumento de 221% em relação ao mesmo período em 2015


As denúncias de violência contra a mulher através do Ligue 180 bateram recorde e aumentaram 221% neste ano em relação a 2015. A pedido do Delas, a Secretaria de Políticas para as Mulheres separou os dados das denúncias de todo o Brasil no período de pré-carnaval e carnaval. 
Neste ano, o serviço registrou 3.174 relatos de violência entre 01 e 09 de fevereiro. Em 2015, de 10 a 18 de fevereiro, foram registrados 1.158 relatos, segundo relatório da secretaria.
Dentre os relatos de violência registrados em 2016, 50,94% (1.892) foram encaminhados para autoridades policiais e Ministério Público, a pedido da/o denunciante. E do total de relatos de violência registrados neste ano, 51,18% (1.901) corresponderam à violência física; 28,43% (1.056), à violência psicológica; 7,51% (279), ao cárcere privado; 7,16% (266), à violência moral; 3,34% (124), à violência sexual; 2,29% (85) à violência patrimonial; e 0,08% (03), ao tráfico de pessoas.
A secretaria ainda aponta que, quando comparado o mesmo período de 2016 em relação a 2015, nota-se um aumento de 206% nos relatos de violência física; 185%, de violência psicológica; 1.113%, de cárcere privado; 280%, de violência moral; 148%, de violência sexual; 286%, de violência patrimonial; e 200%, de tráfico de pessoas.
Dados ainda mostram os cinco estados que registraram os maiores números absolutos de relatos de violência. São Paulo lidera com 618 casos, seguido por Rio de Janeiro, com 487 e Minas Gerais, com 387. Completam a lista Bahia, com 223, e Rio Grande do Sul, com 195. 
A lista de estados foi quase a mesma em 2015, mas com números bem menores no ano passado: São Paulo, 224; Rio de Janeiro, 161; Minas Gerais, 103; Bahia, 93 e Paraná, 69. 
Campanha
Nesse carnaval, campanhas para que as mulheres usassem o Ligue 180 ganharam força e famosas posaram com a camiseta da campanha "#meunumero é 180". 
Caso polêmico
Logo no começo do carnaval, na sexta-feira (5), uma jovem usou o Facebook para denunciar que ela e a amiga foram vítimas de assédio em bar na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo. O caso ganhou repercussão nas redes sociais, que também serviram como importante ferramenta para denúncias e relatos.
P.S. do Cemanário: O post de Júlia Velo relatando o que aconteceu com ela e sua amiga pode ser acessado no link abaixo. Até o momento em que editávamos essa matéria, o post de Júlia já tinha sido curtido 136.155 vezes e compartilhado por 40.719 pessoas:

 Júlia Velo há ± 1 semana

http://delas.ig.com.br/comportamento/2016-02-12/denuncias-de-violencia-contra-mulher-no-carnaval-aumentam-mais-de-200.html